Histórias de Moradores de Itanhaém

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade.


História do Morador: Hélio Gomes Rosemberg
Local: São Paulo
Publicado em: 31/12/2014






"A gente chega, se apaixona e não consegue sair”

Sinopse:

O publicitário Hélio Gomes Rosemberg contou sua história ao Museu da Pessoa no dia 10 de dezembro de 2014. Em seu depoimento, Hélio falou sobre sua infância e adolescência nas cidades de Santos e Itanhaém. Descreve os passeios de bicicleta na orla, os mergulhos no mar e o aprendizado do surfe, programas típicos de quem mora em cidade praiana.

Recordou um período de dificuldades que a família enfrentou durante sua infância e como conseguiram superar os problemas. Recorda o início profissional como promotor de vendas, ajudando o pai na venda de meias Lupo. Lembra como foi pai aos 20 anos de idade e como aos poucos foi se encarregado de toda a responsabilidade sobre o filho. Finaliza falando sobre o trabalho desenvolvido na Proeco e como o aporte financeiro do Criança Esperança foi importante para a continuidade dos trabalhos.


História
:

Meu nome é Hélio Gomes Rosemberg. Eu nasci em Santos no dia 12 de abril de 1981. Meu pai é Felipe Musto Rosemberg Neto. Meu pai nasceu na Bahia, em Vitória da Conquista. E minha mãe Valéria Gomes Rosemberg, nasceu no Rio de Janeiro. Meu pai faleceu no ano de 2008, logo que eu entrei aqui na Proeco. Meu pai era comerciante, foi por muitos anos representante comercial e quando faleceu era comerciante, tinha duas lojas em shoppings. E minha mãe sempre trabalhou na área de educação, desde que eu conheço minha mãe ela é educadora, sempre envolvida com a Proeco, foi a fundadora da instituição, presidiu por muitos anos e até hoje trabalha na área. Tenho três irmãos: Felipe, Fábio e Débora.

Eu tive uma infância dos sonhos eu acho com pai e mãe presente, com a família sempre presente, morava pertinho da praia. Acho que eu tinha a vida do típico santista que é pegar final de semana andar de bicicletinha na orla da praia, tomar um banho de mar com o pai, com a mãe. Depois de 13, 14 eu fui morar em Itanhaém, e ali eu vi outro lado da vida muito difícil, porque eu morava numa rua que não tinha asfalto, eu demorava dois quilômetros pra chegar no ponto de ônibus, era tudo lama.

Eu sempre gostei de trabalhar, quando eu morava em Santos, na época de playboy ainda, o meu pai assinava vários jornais, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, o jornal aqui de Santos que é a Tribuna. Meu pai assinava todos os jornais e eu com 12 anos tinha já as minhas vontades de ter minha coisinha, ter um teniszinho, ir no cinema, alguma coisa. Eu sempre tive condição, mas eu nunca gostei de pedir, eu nunca gostei de depender de ninguém. Eu lembro que todo o domingo eu vendia jornal na feira com 12, meus 12 até os meus 16 anos eu vendia escondido todo o domingo jornal na feira pra barraca de peixe, pra barraca de frango.

Meu pai sempre trabalhou na Lupo, praticamente toda a minha pré-adolescência meu pai sempre trabalhou na mesma empresa acho que quase 15 anos. Com 16 ele me deu a oportunidade de trabalhar com ele como promotor de vendas. Com 17 mais ou menos, intercalando esse período, paralelo a esse período a gente também tinha algumas coisas aqui no mercado Carrefour aqui do lado, meu pai montava alguns estandes também da empresa que ele vendia meia e eu ia fazer o mesmo serviço, eu reabastecia o expositor, limpava. Fiz isso sempre paralelo a esses clientes todos que a gente fazia. Quando eu estava com 18 anos, ele abriu uma loja no shopping dessa mesma empresa, eu comecei como vendedor ali da loja dele, depois ele me colocou como gerente, ele abriu outra loja, eu comecei a tomar conta das duas lojas do meu pai. Em 2008 eu recebi uma proposta pra trabalhar numa multinacional como supervisor de quatro cidades daqui da região, era Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe.

Optei, pedi pro meu pai se o meu pai me liberava, o meu pai me liberou, achava uma ótima oportunidade, fui trabalhar. Quatro anos depois eu já tinha assumido toda a Baixada Santista, divisa com Paraná, divisa com Rio de Janeiro, era o único. Quando eu entrei eram quatro supervisores, quando eu saí só tinha eu porque eu tinha assumido todas as regiões sozinho. Ficava muito tempo fora de casa, ficava 15 dias no litoral norte, 15 dias no litoral sul e eu fiquei muito longe de casa, da família, não vi o meu filho crescer, não consegui acompanhar o crescimento do meu filho, fiquei longe da minha mãe, do meu pai, tudo.

Foi quando a minha mãe me confidenciou que ela queria contratar alguém pra trabalhar no Proeco na área de marketing. Porque até então eu só fazia um negócio ou outro no Proeco, tinha até rixa com relação ao Proeco, eu falava: “Pô, o Proeco afasta a minha mãe de mim”. Eu brigava muito com ela, falava: “Pô, mãe, você fica cuidando dos seus filhos e não cuida do seu filho de sangue?”. Porque isso aqui, gente, é uma coisa de doido, a gente chega e se apaixona e não consegue sair. Eu falei: “Vou pedir demissão, vou trabalhar com ela. Vou trabalhar com ela, vou fazer o Proeco”.

Fui pai com 20 anos. A própria mãe dela virou pra mim, falou: “Helinho, se eu fosse você eu o levava pra sua casa de vez. Vocês não são um casal, vocês não estão casados, ela não tem condição de cuidar da criança, ela não gosta de criança, ela deixou muito claro que ela não gosta de criança. Leva ele pra morar com você”. Eu falei: “Poxa, com o maior prazer”. Minha família sempre me apoiou nesse ponto, levei-o pra morar comigo. Meu filho hoje tem 13 anos. Ela não tem contato nenhum com ele, ela não liga pra ele, ela não o procura, ela não sabe onde ele estuda, se ele passou de ano, se ele repetiu, como foi a juventude dele, se está nascendo pelinho debaixo do braço, se não está, se ele tem namoradinha, se ele não tem, se ele tem dificuldade em matemática ou em português. Ela não sabe nada da vida dele.

A Proeco foi fundada pela minha mãe. Ela fundou a Proeco no Pedro Crescenti, alguns aninhos depois teve o convite dessa instituição se tornar de fato uma ONG. Nós recebemos um imóvel cedido por empréstimo por um órgão da igreja católica que cedeu uma casinha pra gente, a gente começou a atender as crianças ali na casinha. Minha participação na Proeco foi sempre involuntária no sentido de coisas bem pequenininhas mesmo. Vim pra Proeco no dia 1º de agosto de 2008, na época eu lembro que eu pedi um tempinho pra eu me adaptar a instituição É uma empresa maravilhosa, fantástica, só que é um lado comercial, tem condutas comerciais, tratam você de maneira comercial, pra uma instituição que é toda humana e que naquela época que eu entrei é humana de tudo.

Todo mundo fazia de tudo um pouquinho, ninguém tinha uma função pré-determinada. Então era uma grande bagunça organizada. Meu pai faleceu, fiquei um tempo fora, quando nós voltamos, foi em março já, a instituição estava de pernas pro ar, tudo tinha ruído. Tudo que a gente estava começando a construir tinha ruído. Se nós não éramos uma empresa organizada, todo mundo se dava super bem, todo mundo se relacionava super bem, não tinha competição, não tinha nada, quando a gente voltou isso aqui estava de pernas pro ar literalmente. Nós tínhamos sido roubados, nós tínhamos tido confusões internas de funcionário pedir pra sair.

A gente vendeu tudo que a gente tinha, vendi carro, vendi moto, ela vendeu outro carro, nós tínhamos um imóvel em Itanhaém que é aquele que eu falei que eu mudei, nós vendemos o imóvel. Todo este dinheiro que foi vendido das coisas, foi pro Proeco, pra injetar no Proeco porque a gente estava com o nome sujo, porque a CND que chama que é a Certidão Negativa de Débitos, a gente estava devendo os impostos pra Receita Federal. Então a gente desfez de tudo pra poder quitar, pra diminuir essa dívida, pra pagar as coisas que estavam atrasadas, tal. E a gente sentou e falou: “Gente, a gente precisa refazer isso aqui. Vamos mudar tudo?” “Vamos”. Acabamos tendo a eleição, entrei como presidente da instituição e a gente começou a mudar o conceito de trabalho aqui dentro.

Hoje a Proeco tem brinquedo, tem um trabalho de recreação infantil que é referência na região, senão a nível Brasil. Vamos oferecer esse serviço pra prefeitura, quem sabe isso começa a fazer as pessoas entenderem a gente com outro olhar. E a gente começou a fazer um eventinho ali, um eventinho ali, um eventinho ali e tal a coisa começou a crescer. Por muito tempo eu fui o filho da Valéria, onde é que eu fosse eu era o filho da Valéria, ninguém me via como profissional.

Hoje graças a Deus eu conquistei o meu espaço dentro da Proeco, dentro da prefeitura, dentro da relação com os parceiros, hoje eu sou o Hélio, o Hélinho como todo mundo chama. E a Proeco hoje eu posso dizer pra você com toda a segurança do mundo, uma dos maiores casos de sucesso da região, uma das instituições mais renomadas hoje no país, a gente tem prêmio. A Proeco vai receber agora semana que vem um prêmio da câmara municipal pelos 20 anos de serviços prestados, três anos de Criança Esperança, dois anos semifinalistas do prêmio Itaú-Unicef. Então nós temos hoje uma repercussão a nível nacional. O Criança Esperança mudou a vida da instituição. Desde que o Criança Esperança chegou tudo se volta a instituição, todo mundo quer conhecer o Proeco.

Proeco é uma sigla, é Projeto Educacional de Conscientização e Orientação. O trabalho principal da Proeco o que é? É envolver numa ação integrada a escola, a família e a comunidade. De que maneira que isso acontece? Todos os dias a Proeco tem duas ações paralelas, ela tem uma ação fixa num colégio municipal aqui em Santos que ela trabalha no contraturno escolar com cerca de 600 crianças levando atividade de arte, de cultura, de lazer, atrás de uma educação bem diferenciada onde a criança aprende brincando.

Nós temos aula de taekwondo, nós temos aula de dança, de música, de tecnologia com os tablets, nós temos um momento só pra recreação e pra lazer, nós temos aula de esportes cooperativos, esportes individuais. Nós temos teatro, contação de histórias, alimentação saudável, atividades de meio ambiente. Isso tudo interligado transforma a criança através dos princípios que nós queremos trabalhar. Então todas as atividades juntas têm um tema uniforme que é o respeito, que são os princípios básicos da cidadania, posso dizer pra você. Antes da gente ensinar o meio ambiente a gente ensina o meio ambiente através da cidadania.

Acho que em 2004 nós escrevemos o primeiro projeto pro Criança Esperança e não foi aprovado. Se eu não me engano o Criança Esperança nunca patrocinou um projeto em Santos antes do nosso. É a primeira vez que o Criança Esperança patrocina um projeto aqui na região. E um dia estou em casa conversando com a minha mãe, abri o meu e-mail, Unesco, um e-mail da Unesco, tal, você foi aprovado, assim, assado. Falei: “Ah, mentira, né? Está de brincadeira. Isso é uma mentira. Nunca vi projeto aprovado por e-mail. Isso é golpe. Isso são aqueles golpes lá, mãe, que você manda e-mail, pega os seus dados e depois usam nossos dados pra coisa ruim”. Eu dormi com aquilo lá, beleza, acordei no outro dia, liguei de novo, falei: “Eu vou ligar pra esse lugar”. Minha mãe: “Liga lá. Liga lá”.

Liguei, atendeu uma moça chamada Cristiane Nogueira, ela pegou o telefone eu falei: “Poxa, olha moça, eu sou aqui de Santos, tal, eu recebi e-mail da Unesco, olha, eu não sei se é verdade, mas dizendo que eu tive um projeto aprovado, a instituição que a gente representa aqui.” “Parabéns, não sei o que.” “Sério mesmo, moça?” “Sério.” “Ah, meu Deus. Moça, só um minuto que eu estou começando a chorar”. E o trabalho começou a acontecer. 2013 o projeto continuou, mas o projeto andou, em 2013 fomos aprovados novamente já muito mais seguros do que ia acontecer. Fizemos o projeto acontecer de maneira, graças a Deus, brilhante aqui na região, sem o apoio na época do poder público porque a secretária de educação não era muito adepta ao nosso projeto, não apoiou.

E agora tivemos pela terceira vez o projeto aprovado pra 2015. 2015 eu acho que vai ser um ano de grande força pra instituição porque eu acho que dois anos apanhando muito com o poder público e sendo muito realizado pelo Criança Esperança, pode-se dizer, você tendo um lado bom todinho do Criança Esperança e tendo todo o lado ruim politicamente você se fortalece muito. Em 2014 é o ano que a gente conseguiu articular muita coisa, tanto com o poder público, que hoje nos recebe de braços abertos, das nove regiões, não só de Santos, como o Criança Esperança ao nosso lado a gente vai fazer um trabalho que a gente vai mudar muita coisa. A gente vai mudar conceito esse ano. Eu acho que a Proeco vem pra 2015 pronta pra mudar conceito.

A vinda do Criança Esperança pra gente fortaleceu não só a nossa credibilidade, eu acho que dá credibilidade pro projeto que é aprovado porque você concorre com milhares de projetos e, você ser o único aqui da região é motivo de muita credibilidade e muita honra. A visibilidade que esse projeto atrai pra gente também é muito grande porque as pessoas ficam de olho, a cobrança é maior, a responsabilidade é maior, mas isso é muito bom porque a visibilidade também aumenta. Em termos práticos e financeiros o Criança Esperança soma muito com relação aos equipamentos que nós adquirimos.

O Criança Esperança vem nos três anos que nós estamos com a parceria somente colocando equipamentos a nossa disposição. Então são máquinas que estão chegando, veículos que chegaram, muitos brinquedos, muitos materiais pra desenvolvimento das atividades. Então hoje se a gente for conhecer o nosso depósito tem muita coisa legal. O trabalho é fundamental e o Criança Esperança fortalece esse lado do equipamento. Sem eles a gente não tinha condições de adquirir 20% do que a gente tem hoje.

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